|
PARCERIAS
VERTICAIS DE CARNE BOVINA E SERVIÇOS DE ALIMENTAÇÃO1
Pedro E. de Felício
Faculdade de Engenharia de Alimentos, Unicamp, Campinas - SP
Josyanne C. M. de Carvalho Rocha
Cinara
M. Shibuya
Fundo de Desenvolvimento da Pecuária do Estado de São
Paulo (FUNDEPEC)
Referência Bibliográfica
Felício, P.E. de; Carvalho-Rocha, J.C.M.; Shibuya, C.M. Higiene
Alimentar, São Paulo SP (aceito para publicação),
1999.
RESUMO
Parcerias verticais, ou alianças, constituem um tipo de coordenação
da cadeia produtiva que objetiva transformar uma mercadoria sem
especificações técnicas num produto com características
bem definidas de qualidade, principalmente sanitária. A experiência
recente de países europeus com zoonoses demonstra que a parceria
vertical constitui o caminho mais curto para a segurança
de qualidade da carne.
A carne bovina
é um alimento nutricionalmente denso, importante para a manutenção
da saúde, amplamente utilizado em refeições
institucionais, que requer inspeção sanitária
rigorosa, conservação adequada e controle total de
qualidade.
Os serviços
de alimentação dependem de um fornecimento seguro
de matérias primas para processar refeições
equilibradas e saudáveis, portanto, podem se beneficiar das
parcerias verticais que estão atualmente sendo desenvolvidas
em algumas áreas do mercado brasileiro.
____________
1 Artigo aceito
para publicação na Revista Higiene Alimentar, São
Paulo SP, 1999.
Publicado na Revista Higiene Alimentar Julho / Agosto 1999,
vol. 13 nº 63, pág. 9-14.
INTRODUCÃO
Parceria vertical, ou aliança mercadológica, no sistema
carne bovina é definida hoje, no Brasil, como uma iniciativa
conjunta de supermercados com frigoríficos e pecuaristas
objetivando levar ao consumidor uma carne de origem conhecida e
qualidade assegurada. Entretanto, não há porque não
ampliar esta definição de modo a incluir outros parceiros
como açougues e serviços de alimentação.
A parceria vertical
difere da integração vertical porque na última
as várias etapas das transações são
realizadas dentro de uma mesma firma (2). Exemplo típico
é a produção integrada de leite pasteurizado,
embalado e distribuído por algumas granjas. Mas, essa integração
raramente ocorre nas cadeias produtivas das carnes.
De acordo com
FEARNE (3) esses negócios colaborativos (linkages,
alliances, value-added chains ou partnerships)
são vistos por alguns como um meio-termo entre os extremos
do livre mercado de commodities e da completa integração
vertical, e por outros como uma alternativa menos rígida
de coordenação de mercado.
Nas alianças
de carne bovina não há contratos que obriguem qualquer
uma das partes a comprar ou vender a parceiros da aliança,
ou seja, ninguém é obrigado a qualquer transação
comercial que não seja de seu interesse. Há, porém,
compromissos com escalas previamente acertadas de entrega aos parceiros,
para evitar falta de produto, e com as especificações
técnicas de qualidade.
Numa integração
desse tipo, as adesões e até mesmo o cumprimento de
compromissos devem ser espontâneos. No entanto, à coordenação,
assessorada por uma auditoria de qualidade, reserva-se o direito
de não aprovar a participação, ou até
mesmo de excluir um participante com desempenho insuficiente ou
incompatível com o nível de exigência do programa.
O que se pretende
demonstrar nos itens subseqüentes é que, embora difícil,
pois a mentalidade conservadora e a inadequação
das estruturas empresariais são apenas dois exemplos
das fragilidades da cadeia da carne bovina (2), a implantação
de sistemas de rastreamento de suprimentos e de APPCC (Análise
de Perigo e Pontos Críticos de Controle) exige que os serviços
de alimentação participem das alianças mercadológicas
que estão surgindo no País.
CONSUMO DE
CARNE E SAÚDE HUMANA
Tabela 1. Composição
aproximada de 100g de carne bovina magra, assada ou grelhada, com
gordura visível removida.
Umidade
(g)
|
66
|
Vitamina
B12 (mg)
|
1,5
2,5
|
Proteína
(g)
|
27
|
Tiamina
(mg)
|
0,18
- 0,24
|
Gordura
(g)
|
6,2
|
Riboflavina
(mg)
|
0,13
- 0,17
|
- Ác.
graxos sat. (g)
|
2,2
|
Niacina
(mg)
|
4
5
|
- Colesterol
(mg)
|
84
|
Folacina
(mg)
|
15
20
|
Ferro (mg)
|
3
- 5
|
Vitamina
B6 (mg)
|
0,30
- 0,40
|
Zinco (mg)
|
4
- 5
|
Kcalorias
|
190
|
Fonte: Adaptado
de BRIGGS & SCHWEIGERT (1) e outros autores.
As carnes em
geral, e a bovina em particular, constituem excelentes fontes de
proteínas, vitaminas do complexo B e minerais essenciais
como ferro e zinco. O consumo de 100 a 150g de carne magra por dia
é especialmente importante para a manutenção
da saúde nas dietas de baixas calorias, contribuindo significativamente
para atender os requisitos mínimos de nutrientes sem elevar
o aporte calórico, pois como se vê na Tabela 1, 100g
de carne bovina magra assada ou grelhada contém uma alta
densidade de nutrientes e somente 190kcal (1).
Reconhecendo
as recomendações médicas bastante restritivas
quanto à participação de calorias de gordura
animal no conteúdo calórico das dietas, a zootecnia
moderna tem conseguido alterar a composição das carcaças
por meio de genética e manejo da alimentação
animal de modo a aumentar a proporção de tecido muscular
e reduzir a de tecido adiposo.
No gado zebu,
ou produtos de cruzamento Bos taurus x Bos indicus, criado
a pasto e abatido com idade entre 24 e 36 meses, os cortes cárneos
magros (cerca de 10% de gordura) desossados, representam 63%, e
as carnes com até 20% de gordura (peito, costela e retalhos)
representam 12% do peso da carcaça. Os 25% restantes são
de ossos, cartilagens, tendões, aponeuroses e aparas gordas.
Ressalte-se
que, nesse tipo de carne, quase toda gordura dos cortes cárneos
pode ser separada com faca, antes do preparo culinário, ou
no prato à mesa, de modo que a inclusão de 200g dessa
carne nas dietas contribui com 12 a 16g de gordura, ou cerca de
7% de calorias de gordura bovina numa dieta de 2000kcal. Além
disso, na carne bovina menos da metade dos ácidos graxos
é do tipo saturado e a relação entre ácidos
graxos hipocolesterolêmicos e hipercolesterolêmicos
é de 0,83 (4), podendo ser maior na carne brasileira (resultados
não publicados).
Por essas e
outras razões, a carne bovina tem uma forte participação
nos cardápios das refeições coletivas. No Hospital
Albert Einstein, em São Paulo SP, são servidas 130
mil refeições/mês, 93 mil com carne, sendo 50%
destas com carne bovina. No Hospital das Clínicas da Unicamp
são servidas 80 mil refeições/mês, 55%
das quais com carne bovina, e nos Restaurantes Universitários
da mesma instituição, 60% das 147 mil refeições
servidas/mês também contêm carne bovina. (Informações
obtidas com as responsáveis pelos serviços referidos).
Estes são
aspectos favoráveis do consumo de carne em relação
à saúde humana. Entretanto, há outros aspectos
menos auspiciosos que precisam ser considerados, como é o
caso das doenças transmissíveis dos animais ao homem,
das toxi-infecções alimentares, e dos resíduos
químicos.
Sobre as doenças
transmissíveis, a que mais chama a atenção
na atualidade é a BSE (encefalopatia espongiforme bovina)
ou doença da vaca louca, que ocorre no Reino Unido desde
1983 e, mais recentemente, em alguns países da Europa Continental,
como Portugal, onde neste ano já foram constatados mais de
50 casos de animais infectados. Desde 1996 o governo britânico
admite que o agente causal da BSE pode ser o mesmo da nvCJS (nova
variante da Síndrome de Creutzfeld e Jakob) em seres humanos.
Felizmente, não há nenhum registro de caso de BSE
no Brasil.
Dados estatísticos
não são o ponto forte do Brasil, mas sabe-se que aqui
é comum encontrar 3% de cisticercose no gado abatido em matadouros
inspecionados por autoridades federais; imagine-se, então,
qual seria a incidência da doença parasitária
no gado das vizinhanças de centros urbanos, abatido em matadouros
que operam à margem da lei, ou sob a proteção
dela em muitos estados e municípios, porém de maneira
frouxa e inadequada.
O problema é
que poucos conhecem as diferenças entre um sistema de inspeção
concebido para ter poder de polícia sanitária e outros
sistemas menos ortodoxos, concebidos para aparentar seriedade do
poder executivo local. Isto tem causado muito prejuízo, não
apenas à saúde pública, o que já é
muito grave, mas também à economia como um todo, em
termos de desorganização do sistema industrial, e
à imagem de país exportador - detentor de um moderno
parque industrial de carnes - que foi criada nas décadas
de 70 e 80, e que vem sendo destruída nesta década.
A falta de controle
de resíduos químicos nos alimentos em geral também
faz parte do mesmo contexto em que prevalece a perda do poder dos
órgãos fiscalizadores.
No tocante às
toxi-infecções, cresce a preocupação
com a contaminação dos alimentos em geral, e da carne
em particular, por patógenos como Staphylococcus aureus,
Salmonella, Campylobacter spp. Listeria monocytogenes e Escherichia
coli H7:0157, os quais têm sido responsáveis por
inúmeros casos de intoxicação e morte, principalmente
em países onde o registro de tais ocorrências é
levado a sério, conforme a Tabela 2.
Tabela 2 . Estimativa
de casos de toxi-infecções e mortes delas decorrentes,
nos Estados Unidos.
|
Patógeno
|
Casos
por ano
|
Mortes
por ano
|
Staphylococcus
aureus
|
8,9
milhões
|
7
mil
|
Salmonella
|
3,0
milhões
|
2
mil
|
Campylobacter
spp.
|
2,1
milhões
|
2
mil
|
Listeria
monocytogenes
|
25
mil
|
1
mil
|
Escherichia
coli H7:0157
|
200
mil
|
400
|
Fonte: SNYDER
( 5) com adaptações.
Pode até
ser que alguns desses patógenos não tenham aqui a
mesma virulência que têm por lá; que o gado daqui
de pêlos curtos e criado a pasto seja mais limpo,
ou que haja menos ruptura de vísceras e contaminação
de carcaças no abate do gado no que resta dos nossos bons
matadouros-frigoríficos, mas tais suposições
não nos deixa numa situação muito confortável
com relação à saúde dos comensais de
serviços de alimentação. Tais serviços
atendem indivíduos com diferentes graus de sensibilidades
às intoxicações alimentares, como crianças,
idosos, pacientes de hospitais, pessoas alérgicas, mulheres
grávidas, indivíduos mal nutridos e portadores de
doenças metabólicas ( 5 )
ADQUIRIR
CARNE DE BOA QUALIDADE NÃO É TAREFA FÁCIL
O processo de
aquisição de carnes pelos serviços de alimentação
em geral é baseado em cotação ou licitação
de preços, que é a grande preocupação
dos administradores, com ressalvas sobre qualidade interpostas pelos
nutricionistas. Mas, admitindo-se que os administradores se sensibilizem
com os argumentos em favor da qualidade, quais critérios
devem ser considerados?
Temperaturas
e tempo são parâmetros fundamentais em qualquer programa
de qualidade de alimentos perecíveis. No recebimento pode-se
medir a temperatura e daí por diante controlar o tempo e
a temperatura de estocagem. Mas, que controle o nutricionista pode
ter sobre tais parâmetros desde o abate até a entrega
na plataforma de recebimento?
Note-se, ainda,
que a temperatura de 5oC, usualmente recomendada para conservação
de perecíveis sob refrigeração, está
sob suspeita diante do fato de que Listeria monocytogenes e Yersinia
enterocolitica começam a se multiplicar a 0oC ( 5 )
Pode-se fazer
algumas análises, como a medida do pH, porém, como
o pH24horas varia de um músculo a outro, e em função
do estoque de glicogênio muscular antes do abate, raramente
os valores encontrados têm algo a ver com o estado de conservação
da carne. Resolve-se isto, parcialmente, com um controle estatístico
por tipo de corte cárneo, mas é preciso estar ciente
de que as análises físico-químicas, isoladamente,
são na melhor das hipóteses confirmatórias
de um estado de deterioração detectado pelos órgãos
do sentido, e não dizem nada sobre a contaminação
por patógenos.
Haveria, ainda,
a possibilidade de se fazer monitoramento microbiológico,
mas o custo elevado e a demora na obtenção dos resultados
das análises inviabilizam esta alternativa.
Além
desses aspectos de saúde é preciso considerar as proporções
de gordura e aponeuroses, que, por vezes, fazem com que uma aquisição
a preços menores não represente a melhor opção.
É de se notar, também, que os fornecedores brasileiros
não oferecem catálogos com especificações,
o que dificulta as operações de compra.
Entretanto,
a melhor forma de se resolver esses problemas é exigir carne
com qualidade higiênico-sanitária assegurada e especificações
técnicas, desenvolvendo para isso uns poucos fornecedores
fixos responsáveis e negociando preços com base em
planilha de custos. Deve-se prever também a possibilidade
de se fazer periodicamente vistorias técnicas nas instalações
dos fornecedores.
NECESSIDADE
DE UMA LINGUAGEM NAS TRANSAÇÕES COMERCIAIS
Todos os países
que possuem um setor industrial de carnes bem organizado classificam
as carcaças das espécies de carnes vermelhas com base
em parâmetros que variam de um sistema a outro, mas que, em
geral, priorizam a idade ou maturidade, o sexo do animal e a espessura
de gordura subcutânea da carcaça. Em muitos países
ordenam-se as classes, segundo critérios de qualidade e rendimento,
em tipos hierarquizados.
Os sistemas
de classificação de carcaça bovina em geral
se utilizam de características avaliadas na carcaça
quente, ou seja, a coleta de dados é feita no ambiente da
sala de matança. Registra-se num cartão impermeável
o peso da carcaça, a maturidade (número de dentes
incisivos permanentes ou o grau de calcificação das
cartilagens da coluna vertebral), a categoria de sexo (macho, macho
castrado e fêmea), uma medida ou escore de gordura subcutânea
e um escore de conformação ou musculosidade.
Nesses sistemas,
a combinação de maturidade e sexo determina a categoria
animal. Exemplos: a) novilho jovem, macho castrado; b) novilha
jovem, fêmea; c) vaca adulto, fêmea; d)
tourinho jovem, macho inteiro, e d) touro ou marruco
adulto, macho inteiro.
A gordura subcutânea,
medida ou avaliada por profissionais treinados, varia com a categoria
de sexo/maturidade, com o genótipo do animal e com a alimentação
a ele fornecida.
O escore de
musculosidade é o impacto visual causado pelo volume de massa
muscular, e o escore de conformação diz respeito à
forma mais ou menos convexa das regiões anatômicas
da coxa, dorso-lombar , paleta e braço. Ambos são
muito influenciados pelo genótipo do animal e são
bons indicadores da relação carne/osso da carcaça,
sendo que o primeiro indica carne magra/osso e o segundo carne +
gordura/osso.
São muitas
as combinações possíveis e o propósito
é deixar que o mercado demonstre suas preferências
por elas, segundo as necessidades daqueles que industrializam ou
comercializam e os desejos do consumidor.
Nos países
da América do Norte, essas e outras características
são avaliadas após o resfriamento das carcaças,
no ambiente de câmaras frias, combinadas em tipos, que são
imediatamente ordenados segundo uma hierarquia pré-estabelecida
oficialmente denominada grading (tipificação).
Os sistemas
de tipificação dos Estados Unidos e Canadá,
e também da Austrália e Japão, valorizam muito
a cor da gordura e a cor e o grau de marmorização
(marbling) da porção muscular.
O objetivo principal
dos sistemas de classificação e de tipificação
de carcaças é servir de linguagem comum entre os diversos
elos da cadeia produtiva da carne e o consumidor. É através
dessa linguagem que se pode captar mudanças nas atitudes
de compra dos consumidores e transmitir as mensagens
no trajeto inverso da carne, elo por elo da cadeia, até o
primeiro deles que é o dos rebanhos de seleção.
No Brasil, como
em muitos outros países latino-americanos, embora exista
um sistema oficial de classificação nos moldes europeus,
porém com hierarquização de tipos, portanto,
de tipificação de carcaças, ele só é
usado em situações muito particulares e, assim, não
chega a ser conhecido a ponto de servir como linguagem comercial.
UM SISTEMA
DE IDENTIFICAÇÃO DE ANIMAIS E CARCAÇAS
Desde 1996,
quando o governo britânico reconheceu, após 10 anos
de negativas, a possibilidade de transmissão do agente etiológico
da BSE para seres humanos através da ingestão de carne
e miúdos, o consumo de carne no Reino Unido e em outros países
europeus passou por um forte declínio. Mas, graças
às medidas sanitárias que vêm sendo adotadas,
as estatísticas daqueles países registram uma lenta
e constante recuperação dos níveis anteriores
de consumo.
Entre as medidas
sanitárias implementadas, uma das mais importantes para restaurar
a confiança dos consumidores europeus foi a imposição
de um sistema efetivo de identificação animal
e de registro de transferência de propriedade denominado
traceability (rastreamento). Criou-se, assim, o passaporte
animal, controlado por um sistema informatizado capaz de processar
dados de 24 milhões de movimentos (nascimentos
e transferências) de animais por ano ( 3 ).
Um dado importante
é que somente produtores ligados a um programa de certificação
de qualidade são elegíveis para participar das parcerias
que proliferam no setor da carne no Reino Unido e a
corrida agora é para se desenvolver um sistema de rastreamento
completo ( 3 ), do animal até os cortes individuais
para venda ao consumidor.
Assim, a idéia
do rastreamento - que consta ter sido implementada inicialmente
na Alemanha, para demonstrar aos consumidores que a carne que estavam
comprando não era importada e, portanto, tinha a segurança
conferida pelos serviços veterinários do governo alemão
ganhou o mundo e já está se tornando exigência
no comércio internacional.
E é essa
exigência dos importadores que está provocando uma
mudança de atitude no segmento industrial de carne bovina
no Brasil. Vê-se hoje empresários do ramo, que sempre
foram resistentes às inovações que não
lhes permitissem auferir lucros imediatos, procurando atalhos para
o novo caminho, para o qual encontram-se completamente despreparados.
A ALIANÇA
MERCADOLÓGICA DO ESTADO DE SÃO PAULO
No início
de 1997, na sede do Fundepec Fundo de Desenvolvimento da
Pecuária do estado de São Paulo, no Parque da Água
Branca em São Paulo, foi criada uma aliança entre
uns poucos pecuaristas, um matadouro-frigorífico e uma rede
de supermercados com três lojas na capital, com o objetivo
de coordenar os procedimentos técnicos e comerciais de um
novo programa de qualidade de carne.
A Aliança
de São Paulo, inspirada no Programa de Qualidade de Carne
do Rio Grande do Sul, partiu da premissa de que é possível
transformar uma commodity num produto devidamente identificado,
com certificado de origem e qualidade assegurada.
Detalhando um
pouco mais, commodity é uma mercadoria sem marca,
como a soja ou o milho, não interessando quem a produziu.
Assim é o comércio de carne. Compra-se e vende-se
carne bovina sem uma classificação, exceto a de sexo:
carne de boi e carne de vaca, na melhor das hipóteses.
Ao contrário
da commodity, o produto ou mercadoria diferenciada tem
marca e especificações técnicas. No caso da
Aliança de São Paulo, a seleção do gado
é feita no local de produção e confirmada no
frigorífico por um sistema de tipificação derivado
do sistema oficial do Ministério da Agricultura. Aceita-se
somente carcaças de novilhos e novilhas com no máximo
quatro dentes incisivos permanentes (até 36 meses), e de
tourinhos sem nenhum dente incisivo permanente (até cerca
de 24 meses de idade). Também devem atender a critérios
de peso mínimo de 225kg para machos e 180kg para fêmeas
e gordura de cobertura de 3mm a 8mm.
O produto precisa
ser identificado ou ninguém saberá da sua existência.
A identificação é feita com uma marca ou um
selo de qualidade, a qual precisa ser comunicada aos potenciais
clientes e consumidores. A comunicação deve se ater
à qualidade do produto, sem nenhuma afirmação
que não possa ser comprovada, seja pelo cliente/consumidor,
seja em laboratório, caso contrário perde-se a credibilidade.
Certificar a
origem do produto não é uma tarefa muito complexa
quando se trabalha com pouca carne. Uns poucos pecuaristas fornecem
o gado que é abatido em separado num certo dia da semana
e as carcaças também são desossadas e a carne
empacotada no dia seguinte separadamente. Portanto, trata-se de
uma simples identificação de lotes segundo a procedência.
Entretanto, a situação fica mais complicada quando
a demanda aumenta tornando necessária a fabricação
de diversos lotes na mesma jornada. Nesse caso, cresce a probabilidade
de erros de identificação de cortes cárneos
com o número de lote trocado.
Antes disso,
é preciso investir no desenvolvimento de tecnologia de rastreamento
de animais, carcaças e cortes individuais. Tal desenvolvimento
é um grande desafio para a cadeia produtiva da carne como
um todo, pois exigirá a identificação eletrônica
dos animais desde a fazenda de criação, sendo muito
provável que somente através da participação
em parcerias verticais é que os criadores poderão
ser convencidos de que devem implementar a tecnologia em suas propriedades.
A demanda de
carne da Aliança de São Paulo tem crescido muito,
tendo passado de 80 bovinos/semana no início do programa
para 800 animais em 18 meses. A carne que antes era identificada
apenas como novilho precoce em displays de uma rede
de supermercados, passou a ser rotulada com uma estampilha adesiva
e já pode ser encontrada em duas redes de supermercados.
O número de pecuaristas cadastrados no Fundepec para fornecimento
de animais já ultrapassa duas centenas, e os abates agora
são feitos em dois matadouros-frigoríficos uma vez
por semana.
Para chegar
nesse ponto, o Fundepec cadastra produtores e suas estimativas de
mês de fornecimento, promove visitas de campo, reúne
periodicamente os parceiros para analisar o andamento do programa
e as metas projetadas, promove palestras e cursos em diversas regiões
do estado entre outras atividades.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
1. BRIGGS, G.M.;
SCHWEIGERT, B. An overview of meat in the diet. In: PEARSON, A.M.;
DUTSON, T.R. Meat and Health. Advances in Meat Research Series,
v. 6, p. 1-20 1990.
2. FAVERET FILHO,
P. Cadeia da carne bovina: os desafios da coordenação
vertical. II Simpósio Nacional da Sociedade Brasileira de
Melhoramento Animal. Uberaba MG, junho de 1998. (Mimeo).
3. FEARNE, A.
Building partnerships in the meat supply chain: the case of the
UK beef industry. Food Industry Management Group, Wye College, University
of London, junho de 1998. (Mimeo).
4. REISER, R.;
SHORLAND, F.B. Meat fats and fatty acids. In: PEARSON, A.M.; DUTSON,
T.R. Meat and Health. Advances in Meat Research Series, v. 6, p.
21-62, 1990.
5. SNYDER Jr.,
O.P. HACCP-TQM for retail and food service operations. In: PEARSON,
A.M.; DUTSON, T.R. HACCP in Meat, Poultry and Fish Processing. Advances
in Meat Research Series, v. 10, p. 230-299, 1995.
<< Voltar
|
|
|