Boi e Carne: Encontro da Qualidade expõe marcas

Evento, organizado pelo Fundepec, temperou debates com prova de degustação.

Maristela Franco

O processo de diferenciação de carne bovina brasileira, por mio de marcas comerciais, finalmente está chegando às prateleiras dos supermercados. Foi o que mostrou o Encontro de Qualidade, organizado pelo Fundo de Desenvolvimento da Pecuária do Estado de São Paulo (Fundepec), entre os dias 05 e 06 de dezembro de 2002, na capital paulista. Além de debater temas polêmicos como rastreabilidade, competitividade externa e avaliação de conformidade, o evento montou um painel com seis das principais marcas de carne apresentando a historia d cada projeto e relatos de experiências.
Realizado com apoio do Fórum Nacional de Pecuária de Corte, da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo e do Senar, o Encontro de Qualidade traçou um panorama bastante fiel das tendências mercadológicas atuais, que tem por foco o consumidor. Esse “personagem” esteve presente nos debates sobre o Sistema de Identificação e Certificação Animal (Sisbov) e nas palestras sobre certificação, “comportamento” da carne no varejo e desenvolvimento de produtos. As exigências do consumidor, no que se refere a padrões de qualidade segurança alimentar, começam a direcionar também a produção pecuária. Isso ficou visível durante o evento, encerrado com uma prova de degustação, que reuniu cerca de 200 pessoas.

Rastreabilidade – Potencialmente responsável por garantir uma imagem saudável à carne bovina brasileira, o Sisbov foi muito criticado, pois não tem cumprido seu papel, devido a distorções nas regras do sistema. Após a palestra de Willian Wattie, técnico do Consulado da Nova Zelândia, sobre o modelo de rastreabilidade de seu país, Rui Eduardo Saldanha Vargas, diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Dipoa), órgão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), descreveu as linhas gerais do Sisbov, deixando claro que o papel do governo é “garantir conformidade e exercer controle sobre o sistema, cabendo à iniciativa privada coloca-lo em funcionamento”.
Segundo Vargas, mudanças no cenário mundial levaram o Brasil a investir em rastreabilidade. “O consumidor deseja produtos seguros e com garantias demonstráveis de inocuidade. Não é suficiente dizer, é preciso demonstrar. A inocuidade é uma meta a alcançar por meio da redução de riscos potenciais”, ressaltou ele. O diretor do Dipoa definou o Sisbov como uma pequena engrenagem no complexo mecanismo do mercado mundial: “É preciso coloca-lo em seu contexto e não esquecer suas finalidades primordiais. Entender que nenhuma legislação, por si só, melhora a qualidade dos produtos e serviços. É necessária a cooperação da maioria dos interessados”.
Abordando questões mais práticas, Vantuil Carneiro Sobrinho, da Brasil Certificações, fez um relato das dificuldades encontradas na implantação do Sisbov, que estacionou em área perigosa: a certificação de bois gordos pouco antes do abate, financiada pelos frigoríficos, o que está desestimulando a participação dos pecuaristas no sistema. Durante o encontro organizado pelo Fundepec, diversas denúncias de irregularidades foram mencionadas, sem obter resposta objetiva por parte de Rui Vargas, como representante do governo. A opinião consensual é de que os seguimentos da cadeia pecuária bovina devem sentar à mesa e firmar um acordo que viabilize a implantação do Sisbov.

Perspectivas de mercado – Mudando um pouco o foco do debate, Pedro Camargo Neto, então secretário de Produção e Comercialização do mapa, fez um balanço das exportações brasileiras de carne bovina, que cresceram 425,46% entre 1990 e 2001. Mas, segundo ele, esses números são relativos. Entre novembro de 2000/outubro de 2001 e novembro de 2001/outubro de 2002, por exemplo, houve um incremento de 11,19% nas vendas externas em faturamento e 22,46% em volume, mas o preço médio da carne brasileira sifreu queda de 9,21%. “Na verdade, se analisarmos mais a fundo nosso desempenho lá fora, veremos que ele ainda é medíocre, pois estamos ausentes dos principais mercados importadores de carne in natura do mundo, devido à febre aftosa. Nosso maior cliente individual, hoje, é o Chile, com 15% do volume exportado”, criticou Camargo Neto.
No mercado interno, a carne bovina continua sofrendo forte concorrência do frango, mas o açougue ainda é uma das seções mais importantes das grandes redes varejistas, concentrando 7,4% do total de vendas. Segundo Aguinaldo Gomes Marques, gerente técnico da Associação Brasileira de Supermercados, a carne bovina está passando por um processo de diferenciação inevitável, pois o consumidor moderno prefere comprar peças já preparadas ou semiprontas e essa tendência deve se intensificar nos próximos anos, com reflexo sobre toda a cadeia pecuária bovina.
Para aprender a lidar com essa nova realidade, conforme explicou José Luiz Tejon, professor da Fundação Getúlio Vargas, o pecuarista terá de se profissionalizar. “O grande negócio do mundo é a mente humana, a cuca. Realidade é o que você pensa”, explicou o professor, lembrando que o maior ativo de qualquer empresa é a qualidade percebida, as imagens emocionais ligadas ao produto. São elas que conferem valor à marco, segundo Tejon, “o setor pecuário precisa trabalhar a cuca do consumidor. De nada adianta ter uma brutal excelência dentro da porteira, se a qualidade percebida da carne é ruim e não remunerada”.
Além de investir em marketing, o setor deve estabelecer normas para a certificação de conformidade, tema da palestra de Reinaldo Dias Ferraz de Souza, do Ministério da Ciência e Tecnologia. Esse tipo de certificação (baseada em protocolos de qualidade e dirigida a produtos diferenciados, como as carne com marca, por exemplo) será um dos grandes temas de discussão em 2003. O Fundepec, cujo trabalho na área de certificação foi apresentado durante o evento por Cínara Milanez Shibuya, tem acompanhado o assunto de perto e pretende contribuir para esse debate.

Marcas – O último dia do encontro foi ocupado por exposições sobre seis marcas de carne: Beef Tropical, Nelore Natural, Montana Grill, Teen Beef Campboi, Ana Paula e Pampa, uma boa mostra do processo de renovação do mercado. Outros movimentos semelhantes, também com base em marcas, já ocorreram na pecuária bovina, mas este parece mais consistente, tanto em numero quanto em qualidade (veja quadro). Durante o evento, foi realizada ainda uma palestra sobre o Sistema de Produção de Novilho Superprecoce, desenvolvido pela Unesp-Botucatu. Esse sistema, que hoje serve de parâmetro para vários projetos pecuários no país, visa a produção de animais com padrão definido: 12-14 meses, 17 a 19 @ limpas, 3 a 5 mm de cobertura de gordura e carne macia.
O evento foi encerrado com uma apresentação do Serviço de Informação da Carne (SIC), por sua vice-presidente executiva, Andréia Veríssimo. Ela pediu a colaboração de todos para o fortalecimento da entidade, cujo papel é divulgar a carne bovina, principalmente junto ao consumidor. Depois, os presentes foram convidados a participar da prova de degustação de quatro marcas (Nelore Natural, Beef Tropical, Montana Grill e Teen Beef Campboi).Os questionários preenchidos durante o evento foram processados e entregues aos coordenadores dos quatro projetos para posterior avaliação.

PERFIL DE SEIS MARCAS DE CARNE

Marca
Iniciativa e coordenação
Volume de abate atual
Parceiros
Distribuição no varejo
Padrão exigido
Metas para 2003
Prêmio ao produtor
Núcleo de Produtores de Novilho Precoce de MG 1.600-2.00 animais/mês *160 produtores
*Abatedouro da Distribuidora de Carnes MG
*9 lojas do pequeno varejo de Uberlândia - MG *Novilhos com até 4 dentes
*Mínimo de 225ks de carcaça p/ M e 180Kg p/ F
*Mínimo de 3mm de gordura
Abate de 4.000 animais / mês *Para machos:3% sobre a cotação máxima da Esalq, no dia anterior a venda
*Preço da @ de boi p/ fêmeas
Associação dos Criadores de Nelore do Brasil 4.500 animais / mês *292 produtores cadastrados, todos de Rondônia
*Frigovira, de RO
*1 loja de Hipermercado Andorinha em SP
*3 lojas do Empório São Paulo, SP
*8 lojas da Rede Bon Marché, SP
*Idade máxima de 42 meses (6 dentes)
*Mínimo de 240kg de carcaça p/ M e 195kg p/ F
*Mínimo de 3mm de gordura
Fechar 2003 com 200.000 animais abatidos *De R$0,40 a R$0,80 sobre a @, dependendo do número de animais classificados dentro do programa
Grupo Montana (da dupla Xitãozinho e Xororó), com sede em SP 4.000 a 5.000 animais / mês *Cerca de 100 pecuaristas, a maioria filiada à As. dos Prod. de Novilho Precoce do MS
*Mafrig
*180 lojas da rede Pão de Açucar
*50 lojas do interior de SP, onde a rede não está presente
*Novilhos de até 4 dentes
*Mínimo de 250Kg de carcaça p/ M e 190kg p/ F
*Mínimo de 3mm de gordura
Abate de 12.000 a 15.000 animais / mês *Entre 2% e 3% sobre a @ do dia para machos
*Entre 4% e preço de @ de boi para fêmeas
Grupo Campboi, de Guapiaçu, SP 1.000 fêmeas superprecoces / mês *60 fornecedores cadastrados
*Frigorífico Santa Esmeralda (próprio)
*7 lojas do Hipermercados d´Avó, na capital paulista
*Casa de Carne Amoreiras, em Campinas, SP
*Novilhas de no máximo 18 meses
*Carcaça de no máximo 12 @
Mínimo de 4mm de cobertura de gordura
*Fechar 2003 com 45.000 fêmeas abatidas (média de 3,750 / mês) *Máximo de 8@ de fêmea (preço da região) p/ bezerras desmamadas
*@ de boi p/ as fêmeas já terminadas
Ana Paula Pecuária, empresa do RS 1.500 terneiros / mês *70 integrados
*Frigonal, pertencente a Rede Sonai
*Lojas da Rede Sonai, do RS *Animais de com 8 a 15 meses
*160 a 200ks de carcaça
*4 a 8 mm de gordura
*Estabilizar a marca
*Voltar a exportar para o Chile
*4% sobre a @ do boi, mais o custo da rastreabilidade
Associação Brasileira de Hereford e Braford 1.500 cabeças / mês até o final do ano passado (abates temporariamente supensos) *92 produtores
*A ABHH negocia acordo com novo frigorífico. Até novembro, trabalhava com o mercosul
Até o final do ano passado estava em:
*11 lojas da rede Zafari
*Casa de Carne Armelin e Comercial de Carnes Moacir
*Supermercado em Lajeado
*Padrão racial:PO Hereford / Braford ou 1/2 sangue dessas raças (até 4 dentes)
*Acima de 200 kg de carcaça p/ M e 180kg p/ F
*4mm de cobertura de gordura
Retornar abates e atingir 2.000 cabeças / mês *De 1,5% a 3% sobre a @

Fonte: Revista DBO, ano 21, nº 267 – fevereiro de 2003. Autora: Maristela Franco.