A importância da Febre Aftosa em Saúde Pública.
Edviges Maristela Pituco
Médica Veterinária
Centro de Sanidade Animal
Instituto Biológico
Introdução
Os agentes de doenças animais prejudicam a população
humana de diversas formas, provocando doenças que são
as chamadas zoonoses, ou seja, as doenças que se transmitem
dos animais vertebrados ao homem. Representam uma importante ameaça,
pois, além de afetarem a saúde e o bem estar, diminuem
a produtividade dos rebanhos e reduzem a disponibilidade de alimentos
protéicos para a população humana.
Para examinar a importância da saúde animal para
a saúde humana, devemos considerar a definição
de saúde da Organização Mundial da Saúde
como um guia. ...Saúde não é a mera
ausência de doença ou injúria, é um
estado de completo bem estar físico, mental e social....
A Saúde Pública Veterinária contribui diretamente
para alcançar este objetivo, pois ...compreende todos
os esforços comunitários que influenciam e são
influenciados pela da Medicina Veterinária e Ciência
aplicada para a prevenção de doença, proteção
da vida, e promoção do bem estar e eficiência
do homem... e permite um campo de trabalho ilimitado, ao
participar no estudo da inter-relação de doença
e saúde no homem e animais.
A Febre Aftosa representa uma importante ameaça para o
bem estar da população, devido ao seu impacto sobre
a economia nacional de diversos países, onde o comércio
com o exterior e estabilidade, dependem diretamente da confiabilidade
dos alimentos de origem animal, que devem ser oriundos de animais
isentos desta enfermidade, demonstrando a estreita relação
que existe entre saúde pública, o ambiente e o bem
estar sócio-econômico.
A importância da Febre Aftosa em saúde pública
seria ínfima se não considerássemos sob o
ponto de vista social e econômico. Afeta os produtores,
empresários e famílias rurais por seus efeitos desfavoráveis
sobre a produção, produtividade e rentabilidade
pecuária. Incide negativamente nas atividades comerciais
do setor agropecuário, prejudicando o consumidor e a sociedade
em geral pela interferência que a enfermidade exerce na
disponibilidade e distribuição dos alimentos de
origem animal, assim como pelas barreira sanitárias impostas
pelo mercado internacional de animais, produtos e subprodutos.
E mais, onera os custos públicos e privados, pelos investimentos
necessários para sua prevenção, controle
e erradicação.
Apesar de ter sido descrita pela primeira vez em 1546, e dos
esforços para o controle e erradicação, continua
sendo alvo de permanente pesquisa e preocupação.
Nos anos 2000 e 2001, a febre aftosa voltou às manchetes
dos jornais de todos os continentes, e as imagens dos milhares
de animais sendo sacrificados ficarão para sempre registrados
na memória da população mundial. A reintrodução
do vírus em países e regiões reconhecidas
como livres, ocasionando elevados prejuízos econômicos
e sociais, como no Japão e Taiwan, livres da doença
há quase 100 anos, vários países da Comunidade
Européia, onde o mesmo não acontecia por 10 anos
ou mais, e Argentina e Uruguai já reconhecidos como livres,
fez com que a comunidade científica e todas as classes
sociais se preocupassem com assunto.
No Brasil, a Febre Aftosa é um fator limitante para o desenvolvimento
econômico da indústria animal. Sua presença
impõe a adoção de medidas sanitárias
no comércio interno e internacional de animais e produtos
não tratados derivados da pecuária.
A Doença
A febre aftosa é uma enfermidade viral, muito contagiosa,
de evolução aguda, que afeta naturalmente os animais
biungulados domésticos e selvagens: bovinos, bubalinos,
ovinos, caprinos e suínos. Entre as espécies não
biunguladas, foi demonstrada a susceptibilidade de elefantes e
capivaras. É considerada como zoonose, porém com
raros casos em humanos e em situações muito especiais.
Caracteriza-se por febre e formação de vesículas
na cavidade bucal e espaços interdigitais.
O vírus pertence à família Picornaviridae
, gênero aphthovirus. Seu genoma é constituído
por uma única molécula de RNA. Foi demonstrado como
agente etiológico da febre aftosa em 1897 por Loeffler
e Frosch. São conhecidos 7 sorotipos antigênica e
imunogênicamente diferentes: O, A, C, SAT 1, SAT 2, SAT
3 e Ásia 1. No Brasil foram identificados 03 tipos: A,
O e C . O agente apresenta grande tendência a mutações
que originaram numerosos subtipos e centenas de cepas diferentes,
mas com certo grau de proteção cruzada. O aparecimento
de novos subtipos em uma região leva a falhas de imunidade
das vacinas empregadas e em consequência, podem aparecer
surtos. Estas diferenças genéticas entre os agentes
de doenças são o motivo pelo qual se impõem
barreiras sanitárias para evitar que o vírus seja
trazido junto com animais, produtos e subprodutos importados,
mesmo que sejam agentes de doenças já existentes
no País.
O vírus da febre aftosa é lábil em pH ácido
(menor que 6) e alcalino (maior que 9) é sensível
aos desinfetantes químicos como carbonato de sódio
a 4%, formol a 10%, Hidróxido de sódio 2% (soda
cáustica) e meios físicos como calor, radiação
ultravioleta, ionização por raios gama e luz solar.
Fonte de infecção e modo de transmissão
O animal infectado elimina o vírus por todas as secreções
e excreções (saliva, sêmen, leite, urina e
fezes), contaminando o meio ambiente. Os títulos mais altos
do vírus se encontram no líquido das vesículas
e no epitélio das lesões.
Os produtos derivados de animais infectados podem estar contaminados.
De acordo com o processamento, são considerados de maior
ou menor risco de infecção. Por exemplo a carne
in natura com gânglios, órgãos, medula óssea,
sangue são de alto risco, igualmente o leite não
tratado e subprodutos como manteiga. Tem-se demonstrado, que produtos
contaminados transmitem a infecção aos animais susceptíveis.
O código zoosanitário Internacional da OIE estabelece
que as carnes devem ser submetidas a um processo de maturação
a uma temperatura superior a +2ºC ou seja, temperatura levemente
superior ao ponto de congelamento, durante um período mínimo
de 24 horas após abate e neste período o pH da carne
será medido no centro do músculo Longissimus dorsi
e este não deverá alcançar um valor superior
a 6,0
É importante salientar que a maturação
da carne inativa o vírus nos tecidos musculares esqueléticos
e cardíacos, devido à queda do pH, causada por formação
de ácido lático o qual usualmente acompanha o rigor
mortis. Em pH 6,0 o vírus é inativado a uma taxa
de 90% por minuto, enquanto que em pH 5,0 a taxa de inativação
é de 90% por segundo. Contudo o vírus pode sobreviver
por mais de 80 dias em carnes congeladas, antes que aconteça
a maturação
O vírus aftoso pode persistir por longos períodos
em coágulos sanguíneos, medula óssea, gânglios
linfáticos, fragmentos ósseos e vísceras,
pois estes tecidos não sofrem a queda de pH que acompanha
o rigor mortis. O pH da carne bovina no momento do abate é
cerca de 7,2 e uma hora depois oscila entre 6,5 - 6,8 .Após
24 horas de armazenamento, sob temperatura levemente superior
ao ponto de congelação, o pH médio situa-se
entre 5,6 -5,8.
Os animais susceptíveis podem infectar-se por contato direto
com conteúdo de vesículas, saliva ou excreções
e secreções dos animais doentes ou indireto por
água, alimentos ou fômites (vestimenta, instrumentos,
equipamentos etc.) contaminados por estas. A infecção
se transmite sobretudo por aerossóis, sendo a via digestiva
(faringe) a mais comum para penetração do vírus,
ocorrendo ainda, pelas vias respiratórias (inalação)
e úbere.
Diagnóstico
A febre aftosa pertence ao chamado grupo de doenças vesiculares,
no qual estão incluídas a Estomatite Vesicular,
o Exantema Vesicular dos Suínos e a Doença Vesicular
dos Suínos. Estas doenças têm em comum a propriedade
de provocar a formação de vesículas típicas
com coloração esbranquiçada contendo liquido
incolor ou ligeiramente sanguinolento, sendo seu diagnóstico
baseado nos sintomas clínicos, nos dados epidemiológicos
e no diagnóstico laboratorial.
Entre as espécies de interesse econômico, a discreta
intensidade das lesões em ovinos, caprinos e búfalos
faz com que o diagnóstico clínico seja bastante
difícil. São freqüentes os casos em que animais
doentes destas espécies não demonstram sintomatologia
clínica, mesmo estando em íntimo contato com bovinos
doentes. Isso não significa que não estejam infectados
ou mesmo doentes. Esta é a maior causa de persistência
do vírus em muitas regiões e uma das principais
responsáveis pelas variações antigênicas
de cepas de campo durante surtos.
O diagnóstico laboratorial é orientado para o isolamento
e identificação do vírus, a partir de amostras
de epitélio das vesículas ou liquido existente nestas,
em lesões de língua, patas ou úbere. O sorodiagnóstico
algumas vezes é possível a partir de amostras pareadas,
quando se busca a conversão de níveis de anticorpos,
porém, não é o método ideal em se
tratando de animais vacinados.
Febre Aftosa em humanos
Apesar de ser rara a ocorrência de Febre Aftosa no homem,
é considerada uma zoonose. Os seres humanos atuam como
hospedeiro acidental e possuem baixa susceptibilidade ao vírus,
se considerarmos a ampla distribuição geográfica,
a alta incidência da enfermidade nos animais domésticos
e as freqüentes oportunidades de exposição
ao agente que o homem está sujeito no campo e no laboratório,
com reduzido número de casos humanos com diagnóstico
laboratorial confirmado. O ser humano é tido como hospedeiro
acidental, que raramente se infecta e adoece. A transmissão
ocorre por contato com animais enfermos ou material infeccioso,
através de lesões mínimas, por exemplo arranhões
e erosões da pele, pelos quais o vírus penetra no
organismo ou pela ingestão de leite não pasteurizado.
A contaminação humana devido à ingestão
de carnes e produtos cárneos não foi comprovada.
A transmissão entre seres humanos também não
foi relatada.
A infecção no homem pode ocasionar uma enfermidade
clinicamente aparente ou pode ser assintomática, diagnosticada
apenas por provas sorológicas. Acredita-se que para produzir
a infecção em humanos, deva haver exposição
massiva ou causas predisponentes que alterem a suscetibilidade
do indivíduo. É de caráter benigno e o período
de incubação varia de 2 a 8 dias, sendo a evolução
da doença similar à dos animais.
Na fase inicial observa-se febre, dor de cabeça, anorexia.
A vesícula primária aparece no local de penetração
do vírus e logo generaliza-se, com formação
de aftas secundárias na boca, mãos, e pés.
Quando não há contaminação bacteriana
secundária, o paciente se restabelece em cerca de duas
semanas. Clinicamente a aftosa pode ser confundida com outras
enfermidades vesiculares, por este motivo, invalida qualquer diagnóstico
realizado apenas com base clínica, sem a confirmação
laboratorial.
A maior parte dos casos registrados na literatura, com diagnóstico
laboratorial confirmado foi identificada na Europa onde as fontes
mais freqüentes de infecção decorreram de acidentes
de laboratório e infecção em ordenhadores,
que foram expostos por contato direto, através de feridas
cutâneas da mão durante a prática da ordenha
de animais infectados. Há poucos registros de enfermidade
por ingestão de leite cru, infecção adquirida
em matadouros, e por manejo de animais doentes durante a colheita
de material infeccioso.
É importante salientar que apesar da Febre Aftosa ser conhecida
desde o século passado, apenas 40 casos foram documentados
com isolamento e identificação ou pela comprovação
de anticorpos no sangue de pessoas recuperadas.
A prevenção da enfermidade no homem, consiste sobretudo,
no controle da enfermidade nos animais domésticos. Para
prevenção individual, recomenda-se proteger as feridas
ou abrasões das pessoas em contato com animais enfermos
ou com materiais contaminados com o vírus e pasteurizar
ou ferver o leite.
O papel dos humanos é mais importante na transmissão
mecânica do vírus aos animais, pelas vestimentas,
calçados e mãos contaminadas, uma vez que o vírus
pode sobreviver durante vários dias no meio ambiente.
Fatores de risco
Estudos epidemiológicos determinaram claramente a existência
de ecossistemas diferentes que proporcionam as condições
necessárias para a manutenção do vírus.
Assim, áreas de exploração extensiva, possuem
todos os elementos para que o agente se mantenha em atividade
através dos tempos, com surgimento de epidemias em determinadas
épocas, levando à falsa conclusão de que
a doença possui características cíclicas
de apresentação.
Na realidade, uma série de fatores sócio-econômicos
determina sua ocorrência. Todos estes fatores podem ser
controlados e em prazos variáveis. Um país ou região
pode alcançar sua erradicação de forma natural
a exemplo de vários países europeus e vários
países sul americanos, onde, a aplicação
de programas com rigoroso controle de trânsito, controle
de focos, vacinação e educação sanitária,
permitiu alcançar a erradicação com uma relação
custo/benefício bastante positiva. Também é
possível alcançar este estágio com a aplicação
de medidas de eliminação do agente, através
da eliminação dos suscetíveis.
Porém, o mais difícil no mundo atual globalizado,
é manter a condição sanitária alcançada.
Exemplos desta realidade puderam ser demonstrados pela reintrodução
do vírus no Japão, no Reino Unido, na França,
na Holanda, na Argentina, no Uruguai e no Sul do Brasil.
Desta forma, os programas de erradicação, devem
ter em conta o seguimento do processo com programas de prevenção.
Parece que todos os serviços sanitários que alcançaram
a erradicação, foram contaminados pela sensação
de que tudo acabou e não haveria mais motivo para se preocupar
com a possível reincidência da doença. Estabeleceu-se
a falsa idéia de que, uma vez erradicada, a enfermidade
não voltaria jamais. Com isso, cometeu-se um grave erro
ao permitir o desmantelamento das estruturas de atenção
veterinária, principalmente em relação à
vigilância epidemiológica, após a erradicação.
São raros os exemplos de programas que obtiveram sucesso
na erradicação da enfermidade e que mantiveram,
após esta difícil etapa, a realização
de uma vigilância sistemática.
As causas de reintrodução mais freqüentes são
o contato com animais suscetíveis de países vizinhos
que ainda tenham a doença, o ingresso de animais, produtos
e sub-produtos de origem animal legal ou ilegalmente através
de portos, aeroportos e fronteiras, ingresso de pessoas destes
países contaminados, ingresso de meios de transportes contaminados
e falhas nas medidas de biocontenção de laboratórios
que manipulam o agente.
Com relação a produtos e subprodutos, o único
procedimento que pode garantir a ausência de risco de transmissão
do vírus da febre aftosa, por carnes provenientes de regiões
infectadas, é o tratamento térmico do produto. Com
relação a carnes in natura, ainda que o processo
de maturação garanta a eliminação
do vírus nas carnes bovinas, o processo normal de abate
e desossa é incapaz de assegurar a ausência completa
de gânglios, coágulos sangüíneos ou fragmentos
ósseos, nos quais o vírus persiste. Desta maneira
quanto mais elaborado seja o produto in natura comercializado,
nos quais a probabilidade de existência de gânglios,
grandes vasos ou fragmentos ósseos seja mínima,
menor será o risco de transmissão viral.
Recomenda-se que, ainda no destino, seja realizado o processamento
térmico e destruição de todos os resíduos
da industrialização, evitando-se que estes possam
ser acessíveis a animais susceptíveis, particularmente
suínos, que se infectam com dose reduzida de vírus
e excretam em maiores quantidades que os ruminantes.
Avanços
O conjunto de esforços visando integrar o trabalho de
todos os segmentos da agropecuária tem permitido um avanço
sustentável para alcançar a erradicação
da enfermidade em uma vasta área do país, compreendida
pelo Estado de Santa Catarina, considerada internamente como zona
livre de aftosa sem vacinação, e pelos Circuitos
Centro-Oeste e Leste, reconhecidos pelo Escritório Internacional
de Epizootias, OIE, como zona livre de aftosa com vacinação.
A erradicação da febre aftosa abre perspectivas
para uma maior rentabilidade das empresas e famílias rurais,
cria oportunidade para o crescimento da produção
animal com melhores fluxos de distribuição, acesso
e disponibilidade de produtos pecuários, imprescindíveis
para a segurança alimentar e nutrição das
populações humanas, em especial as carentes, pois
estas padecem de desnutrição. Atende ainda, o mercado
global que privilegia e valoriza a qualidade e segurança
sanitária dos produtos de origem animal. A incorporação
de vários países onde a atividade pecuária
é importante, ao circuito livre de Febre Aftosa, seguramente
incidirá numa reestruturação do mercado mundial
de carnes, com mudanças na oferta dos produtos e ajustes
dos custos e preços internacionais.
Bibliografia Consultada
OLASCOAGA R. C.; GOMES I.; ROSENBERG F.; DE MELLO P.A.; ASTUDILLO
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DARSIE, G.C. FEBRE AFTOSA: Eventos recentes na Europa e na América
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